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Uso de células-tronco para tratamento de lesões medulares: recentes avanços e desafios

Posted by on ago 18, 2017

O tratamento de lesões medulares sempre foi um grande desafio na área médica. Isto se deve principalmente ao fato de que a capacidade regenerativa do tecido nervoso é limitada pois não há uma grande população de células-tronco neuronais na medula espinhal e a formação de uma cicatriz e as reações inflamatórias que ocorrem no sítio da lesão inibem a reconstituição do tecido.

Nesse sentido, as células-tronco se tornaram uma grande esperança para o tratamento das lesões medulares. Isto porque estas células poderiam contornar todos estes problemas dado suas características:

(1) as células-tronco tem uma alta capacidade de proliferação, podendo gerar muitas outras células-tronco;

(2) as células-tronco se diferenciam em outros tipos celulares especializados, como células nervosas e, assim, poderiam repor os neurônios perdidos;

(3) as células-tronco podem gerar as células responsáveis pela formação da bainha de mielina, uma espécie de capa que reveste os neurônios e que é fundamental para que estes sejam capazes de transmitir os impulsos nervosos;

(4) determinados tipos de células-tronco têm a capacidade de modular reações inflamatórias, o que evita, no caso das lesões medulares, a morte de mais neurônios.

Diversos tipos de células-tronco vêm sendo testadas como opções terapêuticas para lesões medulares, como células-tronco mesenquimais, células-tronco embrionárias e células-tronco pluripotentes induzidas (células iPS). Estas últimas são células com a mesma capacidade de uma célula embrionária em termos de seu potencial de diferenciação para outros tecidos, porém obtidas a partir de uma célula adulta do próprio indivíduo. Dessa forma, as células iPS são uma boa alternativa para uso terapêutico já que podem ser obtidas do próprio paciente, evitando-se assim problemas de rejeição. As células-tronco mesenquimais também são uma ótima alternativa desse ponto de vista, pois também podem ser obtidas a partir de tecidos do próprio paciente como da medula óssea, da gordura ou da polpa do dente.

Estudos em modelos animais com todos estes tipos de células já foram realizados e revelaram resultados animadores. O número de estudos realizados em seres humanos, por outro lado, ainda é bastante limitado. Grande parte deles tem atestado a segurança do tratamento (ou seja, os relatos de efeitos adversos são poucos) e reportam algumas melhoras de sensibilidade e motoras. No entanto, em nenhum deles houve relato de uma cura efetiva dos problemas decorrentes da lesão.

Particularmente com relação às células-tronco de polpa de dente, diversos estudos realizados em animais mostram que estas células possuem características que as tornam bastante interessantes para o tratamento de lesões medulares: estas células têm capacidade para se diferenciar em células neuronais e liberam fatores neuroprotetores. Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros mostrou que estas células foram capazes de promover regeneração tecidual e melhora locomotora em camundongos com lesão medular. As pesquisas mostram que as células-tronco de polpa de dente de leite possuem um melhor potencial proliferativo e de diferenciação do que as células-tronco presentes na polpa de dentes permanentes.

No entanto, estas últimas também ainda guardam estas características e tem capacidade de liberação de fatores neurotróficos e, portanto, não se pode excluir os seus eventuais efeitos benéficos para o tratamento de lesões medulares. Há que se ressaltar, porém, que não há até o momento nenhum estudo realizado em seres humanos utilizando-se células-tronco derivadas de polpa de dente e, assim, ainda é difícil afirmar que os mesmos resultados positivos observados em camundongos também se refletiriam em humanos.

Diversas terapias usando as células-tronco em combinação com outras estratégias também têm sido elaboradas e testadas. Por exemplo, alguns pesquisadores imaginam que usar diferentes tipos de células-tronco em conjunto possa ser mais interessante do que usar um único tipo isolado, pois diferentes tipos de células-tronco têm diferentes propriedades, o que pode levar a resultados mais promissores. A associação de células-tronco com biomateriais que podem servir como molde ou arcabouço para manter estas células no sítio da lesão também tem sido testada como estratégia terapêutica. Finalmente, alguns cientistas também têm tentado utilizar as células-tronco em combinação com algumas drogas que ajudem também na modulação do ambiente desfavorável à reconstituição da lesão.

No entanto, ainda há muitos desafios a serem superados para que este tipo de terapia possa ser efetivamente utilizado na prática clínica.

Ainda há dúvidas, por exemplo, de qual seria o momento ideal para realização do transplante das células-tronco. Alguns pesquisadores acreditam que, dadas as fortes respostas inflamatórias e liberação de neurotoxinas que ocorrem logo após a lesão, se as células-tronco fossem transplantadas logo após a lesão, elas poderiam não sobreviver neste ambiente. Por outro lado, elas poderiam ter uma ação mais efetiva contra estas respostas prejudiciais, modulando-as e evitando, assim, maiores danos a medula espinhal. Os estudos conduzidos até o momento, tanto em modelos animais quanto em humanos, não são suficientes ainda para se ter uma resposta precisa nesse sentido.

Outro problema para que se possa avaliar de forma efetiva os resultados de uma terapia com células-tronco para tratamento de lesão medular é o fato de que existem muitas diferenças entre os pacientes com relação a localização e grau da lesão. Isto dificulta a interpretação dos resultados de um estudo clínico e suas conclusões. Finalmente, e o mais importante, é a avaliação dos possíveis efeitos adversos de uma terapia com células-tronco. É necessário que muitos estudos sejam feitos, com uma grande quantidade de pacientes seguidos por longos períodos para que se possa afirmar com certeza a segurança do tratamento, como, por exemplo, se há riscos de formação de tumores ou de rejeição.

O que podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, é que as células-tronco podem representar, sim, uma boa alternativa terapêutica para tratamento de lesões medulares e que o investimento em pesquisas nesse sentido é fundamental e promissor.

Fonte: tudosobrecelulastronco.com.br

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