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Sem andar há 10 anos, paratriatleta vira Ironman: “Mudou minha essência”

Posted by on ago 19, 2017

Diogo Ratacheski, você é um Ironman!” Certamente a tão esperada frase do locutor soou como música para os ouvidos do curitibano de 34 anos. Paraplégico desde que sofreu um grave acidente de carro há 10 anos, o ex-atleta de escalada se redescobriu no triatlo e, apenas um ano e meio depois, provou para todo mundo e, principalmente para si mesmo, que tem força e vontade de ferro ao completar o Ironman Florianópolis 2017 em 14h16m41 (clique aqui para relembrar a história dele).

– A alegria maior é realmente a da chegada. Saber que ali a conquista é sua, pois viveu intensamente cada minuto para ter certeza de que valeu a pena. A sensação de capacidade é potencializada ao cubo. Aquele momento em que você pensa: “Eu vim, vi e venci!”. Não há nada melhor do que isso! Cruzar aquele pórtico e escutar as palavras mágicas “Você é um ironman” é algo que as pessoas deveriam se propor a fazer, nem que fosse uma vez na vida, pois mudou a minha essência, e para melhor. Foi fantástico. Estou muito feliz – comemorou o agora ironman.

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Ao lado do “anjo” Luiz Rissato, Diogo completa o Ironman Floripa em cerca de 14h (Foto: Unlimited Sports)

Mas chegar ao tão esperado momento que levou muita gente presente às lágrimas não foi nada fácil. Não só pelos meses de treinos exaustivos que tiveram que ser conciliados com a rotina de trabalho e a família, mas no dia da prova em si, alguns contratempos durante os 3,8km de natação, 180km de ciclismo e 42km de corrida tornaram o caminho de Diogo ainda mais complicado.

– Foram os momentos de superação mais intensos que já vivi. Realmente não é possível entender o significado da expressão “espírito Ironman” através da teoria. Foram 14h16m ininterruptos entre nadar, pedalar e correr, além dos problemas técnicos que ocorreram. Como se não bastassem as distâncias e os problemas, o clima adverso potencializou em muito todas as dificuldades que havíamos previsto para minha prova. Foi muito sofrido, a chuva dificultou muito para mim. A natação foi mais fácil do que eu esperava, a bike foi a parte mais difícil, foi muito exaustivo. A corrida, que é o meu mais forte, foi mais difícil do que eu esperava – lembrou.

E qualquer atleta está sujeito a contratempos em uma prova tão longa como o Ironman. E Diogo, que não depende exclusivamente de sua força e habilidade, mais ainda. Ele utiliza duas cadeiras diferentes, a handbike para o ciclismo e uma espécie de triciclo para a corrida. E foram elas, as cadeiras que são suas pernas no esporte, que quase acabaram com seu sonho.

Diogo enfrentou problemas com as duas cadeiras, a handbike e a da corrida (Foto: Arquivo pessoal)

Diogo enfrentou problemas com as duas cadeiras, a handbike e a da corrida

– No fim da segunda volta do ciclismo, minha roda do lado esquerdo começou a fazer muito barulho. Aí achei que a cadeira não ia aguentar e pedi muito a Deus para conseguir segurar a bike e chegar. Estava com medo de ter que abandonar a prova por causa do equipamento e não pela minha capacidade, o que seria muito frustrante. Na corrida o pneu furou realmente e como estava escuro, não vi que estava furado. Mas meu pace começou a aumentar muito, e eu não estava tão cansado assim. Só depois de uns 20 minutos com barulho percebi que o pneu da frente estava furado em um trecho de luz. Aí paramos para encher, trocar… Só aí perdi uns 30 minutos. Somando com o problema da bike, deve ter dado quase 1h parado por conta de problemas – contou.

E a máxima de que ninguém faz um Ironman sozinho, valeu ainda mais para Diogo. Para superar esses e outros contratempos, ele contou com o anjo Luiz Rissato, que o acompanhou durante todo o Ironman. A presença do triatleta, que tem dois Ultraman e nove Irons nas costas, foi liberada pela organização e acabou sendo fundamental para o sucesso de Diogo. E ao cruzar a linha de chegada lado a lado, Luiz, apesar de toda a experiência no mundo do triatlo, não conteve a emoção.

Pronto para a largada: Diogo nadou os 3,8km ao lado do experiente Luiz Rissato (Foto: Renata Domingues)

Pronto para a largada: Diogo nadou os 3,8km ao lado do experiente Luiz Rissato (Foto: Renata Domingues)

– É muito diferente. Fiquei tão nervoso na largada como se fosse meu primeiro Ironman. Você tem que pensar em coisas que normalmente saberia para você, mas não sabe pra ele. Na última volta da corrida furou o pneu da cadeira e as chaves para trocar tinham ficado na handbike… Eu não cuidei disso, então você fica louco! Eu não posso errar com os outros. Mas chegamos juntos! É maravilhoso quando você termina uma prova, um prazer pessoal. Mas quando você consegue fazer outra pessoa terminar, é muito mais gostoso – comemorou Luiz que vai para o 10º Ironman, tentando o chamado Legacy, no Mundial de Kona.

Além de Luiz, Diogo também contou com o apoio full time da esposa Alexandra, sempre incansável. Aliás, a família Ratacheski foi em peso para Floripa, junto com a técnica de Diogo, a triatleta Vanuza Maciel.

– Triatlo para mim não é nem de perto uma prova individual. Agradeço a Deus por ter me dado forças para essa realização e a toda minha amada família. Obrigado a todos vocês meus amigos queridos que desde o início sempre me incentivaram e acreditaram tanto quanto eu que esse sonho grande seria possível.

Diogo comemora a chegada com a esposa Alexandra  (Foto: Renata Domingues)Diogo comemora a chegada com a esposa Alexandra  (Foto: Renata Domingues)

Diogo comemora a chegada com a esposa Alexandra (Foto: Renata Domingues)

Ao “staff Ratacheski” se somou toda a torcida pelas ruas de Floripa. Torcida que Diogo conquistou com seu carisma e história de vida.

– Sentir a emoção das pessoas assistindo e vibrando por você, gritando seu nome cada vez que passa é surreal.

E Diogo Ratacheski virou símbolo da edição 2017 do Ironman Florianópolis. Recebeu da organização o troféu “Amigo do Ironman” e foi homenageado durante a premiação. Feliz, ele tem a consciência de que o seu feito foi muito mais do que uma realização pessoal. Diogo quer inspirar pessoas e provar que a vida está longe de acabar quando se fica preso a uma cadeira de rodas. Pelo contrário. Muitas vezes é nesse momento que ela começa, ou recomeça, quem sabe, melhor do que era antes.

Diogo foi homenageado pela organização do Ironman (Foto: Unlimited Sports)

Diogo foi homenageado pela organização do Ironman (Foto: Unlimited Sports)

– Muita gente falava meu nome e se sentia inspirado pela minha superação. Sinto uma responsabilidade de contar essa história, de continuar inspirando as pessoas a fazerem o seu melhor. Se eu puder tirar uma pessoa que está na cadeira de rodas, em casa, achando que a vida acabou, já vale a pena. É isso que eu quero passar, o que importa é a felicidade. A vida continua, vida que segue.

Fonte: Globo Esporte

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