Ser Lesado

Curiosidade e Informação sobre Lesão Medular

“Põe a cadeira de rodas na cabeça”. Lesão medular traumática por acidente de moto

Posted by on fev 28, 2017

Sexo e idade do paciente:

Homem de 27 anos de idade.

Sintomatologia e circunstâncias do acidente:

Transladado pela ambulância vital avançada ao Pronto-socorro, depois de sofrer um acidente com moto de alta cilindrada.Tentando sair da pista de aceleração para a estrada de forma precipitada o motorista encontrou outro veículo e foi lançado.Durante a queda, sofreu uma colisão com um muro de betão e caiu no chão com a região dorso-lombar.

Ao entrar no pronto-socorro, o paciente estava consciente, orientado e estável hemodinâmicamente, referindo uma intensa dor lombar e abdominal.

Exame físico:

  • O exame deteta abdómen dolorido, mas sem ponto claro.Nas zonas lombar e dorsal apresenta escoriações superficiais por abrasão com a parte óssea da L1-L2.
  • Os membros superiores sem sinais patológicos de grau sensitivo ou motor.Aprecia-se déficit motor (0/5) e sensitivo (0/2) com nível L1 em ambos os membros inferiores.Os reflexos rotuliano, aquíleo, bulbocavernoso, anal e cremastérico abolidos e não existe controle de esfíncteres.
  • Inicia-se o protocolo de metilprednisolona em altas doses.Nas explorações sucessivas não observa-se a progressão dos sintomas.

Body-TC:

Neumo-tórax inferior bilateral e derrame pleural laminar basal direito; fraturas do 8, 10 e 11 arcos posteriores costal direito; fratura sem deslocar do corpo vertebral de C5 sem invasão do canal medular; fratura com luxação 100% do corpo de L2 em sentido posterior, secção completa do cone medular e fratura de elementos posteriores de L1 e L2 ; à altura de L3-L4 estende-se um grande hematoma retroperitoneal pela amputação das artérias lombares L2 esquerda e L3-L4 bilateralmente.

Diagnóstico:

Lesão medular completo L1 ÁSIA A secundária a Fratura com luxação de 100% do corpo de L2 em sentido posterior com secção completa do cone medular e fratura de elementos posteriores de L1 e L2 tipo C3 (segundo a classificação AO ).

Desde os textos do Corpus Hipocrático (430 e 330 (AC)) quem falou pela primeira vez sobre as lesões ósseas e articulares traumáticas e os escritos do Galeno de Pérgamo (200 d.C) quem introduziu o conceito do sistema nervoso central ao propor que a medula espinal era uma extensão do cérebro que transmitia sensações às extremidades e as enviava de volta ao cérebro.Até hoje os médicos estão a lutar incansavelmente para devolver a mobilidade e sensibilidade à lesão medular (LM).

A primeira referência escrita sobre a lesão da medula espinal, encontra-se no papiro egípcio descoberto no ano 1962 por Edwin Smith. Trata-se do documento médico mais antigo, datado no ano 1550 a. C. e que está na Historical Society de Nova York, no qual é descrito com incrível certeza as consequências das lesões medulares, e inclusive estabelece um prognóstico:“A lesão completa da coluna cervical, implica à paralisia de braços e pernas e a secreção involuntária da urina”.Afirma-se no papiro pelo anônimo médico egípcio, que a “lesão não tem cura”, inclusive recomendava neste tratado cirúrgico que “aos soldados com este problema não se deve administrar água, para não prolongar o seu sofrimento”.

A verdadeira incidência da LM estimada é variável segundo países e metodologia. Sua estimativa varia entre uma faixa de 9 a 53 lesões medulares por milhão de habitantes, em países que denominamos desenvolvidos. A maioria dos estudos referem-se ao predomínio absoluto da etiologia traumática (80%) frente a 18,5% aproximadamente de causa médica e 79,7% dos que sofrem a lesão, segundo as estatísticas, são homens.

Segundo a Sociedade Espanhola de Paraplexia , o biotipo do lesionado medular, é um homem entre 20-30 anos,  que sofre o impacto por acidente de trânsito, capotagem ou ultrapassagem, motorista de veículo, de fim-de-semana, ao anoitecer ou madrugada com provável intoxicação alcoólica e sem cinto, portador de tetraplexia (40%) ou paraplexia (60%) e lesão completa (63%).

Tratamento:

Depois do controle da hemorragia retroperitoneal, realiza-se o tratamento cirúrgico através duma artrodese posterior instrumentada de T11 a L5.Ao completar a disecção, visualiza-se o rompimento do saco dural à altura de L1-L2 e exposição de raízes anguladas, mas não seccionadas.

Após comprovar a redução correta por etapas, colocam-se as barras definitivas de T11 a L5 (exceto L2), com uma barra de redução na esquerda e duas barras na direita:em T12-L1 e L3-L4-L5.

Evolução:

Depois da operação imediata sem incidências realiza-se o tratamento de reabilitação.

No momento da alta hospitalar o paciente é capaz de realizar sedestação com colete com mínima analgesia e boa tolerância e finalmente é transladado a um centro especializado para completar o processo de reabilitação física e social.

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Conclusões e reflexão sobre a Lesão Medular

Em minha prática médica tenho a oportunidade de participar do programa de formação específica no Instituto de Paraplégicos de Toledo e trabalhar na Residência de Lesionados Medulares de Madri.Dessa experiência aparecem em minha vida alguns de meus mais queridos pacientes, que tornaram-se meus grandes amigos, incansáveis lutadores e belas pessoas cheias de energia, esperança e vontade de viver a vida ao máximo pese à invalidez e dependência, e daí suas histórias, muitas das quais trágicas e relacionadas com os acidentes de trânsito, fruto da imprudência ao volante ou do estado de embriaguez.

Este caso médico, como muitos outros de meus amigos e pacientes com a lesão medular,  deriva em um grande caso humano, o de uma pessoa vencedora, com espírito de superação e vontade de não perder em vão nem um segundo mais de sua vida.Os lesionados medulares dizem que vencem a doença quando conseguem “pôr a cadeira de rodas na cabeça”, deixando de lado a tristeza, o desespero, o pensamento sobre os sonhos frustrados e a vida terminada.

Conheço gente que sendo tetraplégica sem capacidade de coçar a testa, de esfregar os olhos, limpar o nariz ou lágrimas ou inclusive falar sem rouquidão ou respirar um longo tempo sem ajuda de um respirador… termina a carreira de advocacia, aprende a dirigir um carro manipulando com o comando mandibular, usar o computador e escrever artigos cheios de luz, relatos incríveis só com o sensor nos lábios ou na testa.Histórias de superação de gente que joga basquete, que é capaz de saltar de para-quedas, navegar, viver, estudar, amar e cuidar de si mesmo e dos demais.

Quero chamar a atenção a somente um detalhe. A lesão medular, como a morte, vai do nosso lado a cada dia. Em um abrir e fechar de olhos qualquer pessoa pode um dia acordar na cama de um hospital e entender que nunca mais poderá dançar, fazer amor ou simplesmente calçar os chinelos.

Não permitamos que a vida destas pessoas seja anulada por nossa ignorância, falta de nosso entendimento e ajuda.Ao não dispor das pernas para caminhar ou braços para dar a mão, não perdem sua capacidade de pensar, sentir, sofrer, alegrar-se, chorar ou rir.

Facilitar a vida dessas pessoas é simples, acessos à praia para deficientes, com um caixa na altura da cadeira de rodas, com uma rampa no ônibus ou trem, um elevador amplo, com uma escada rolante para a cadeira de rodas no acesso a uma discoteca…permitimos que elas continuem sendo parte de nossa sociedade, como antes da doença ou do acidente.

As pessoas com mobilidade reduzida como você e como eu, querem ser felizes.Ajudemos apoiando e promovendo as iniciativas para um mundo sem barreiras, isto permite ter mais oportunidades de integração.

Fonte:  www.medicosporlaseguridadvial.com

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