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Philippe Streiff, tetraplégico após acidente há 30 anos, em Jacarepaguá

Posted by on mar 16, 2019

O triste destino de Philippe Streiff, tetraplégico após acidente há 30 anos, em Jacarepaguá

Reprodução

“Eu me lembro de ter saído dos boxes e, de repente, ficou tudo preto”

Há exatos trinta anos, no dia 15 de março de 1989, uma quarta-feira, Philippe Streiff teve a sua vida mudada para sempre. Por volta das 11 da manhã, o francês testava o novo carro da equipe AGS quando perdeu o controle do carro na curva do Cheirinho no Autódromo Nelson Piquet no Rio de Janeiro. A pancada no guard rail foi violenta, e o modelo JH23B passou por cima das telas de proteção. Por uma série de questões até hoje polêmicas – no resgate, no transporte para uma clínica na Zona Sul da cidade, na recuperação e na transferência para a França – Streiff ficou tetraplégico. Até hoje está preso a uma cadeira de rodas.+

Philippe Streiff correu na Tyrrell de 1985 a 1987 — Foto: Getty Images

Philippe Streiff correu na Tyrrell de 1985 a 1987 — Foto: Getty Images

Piloto com cinco temporadas na Fórmula 1, Streiff disputaria seu segundo campeonato pela equipe francesa AGS, sigla para Automobiles Gonfaronnaises Sportives. Philippe guiava um chassis da temporada anterior evoluído. Era o último dia de testes para o francês, que cederia o carro ao alemão Joachim Winkelhock a partir da quinta-feira. O calor, como sempre na Cidade Maravilhosa, era violentíssimo, e Streiff testava novas rodas de alumínio, que não resistiram às ondulações do asfalto.

O santantônio, peça acima da carroceria com o objetivo de proteger a cabeça do piloto em caso de capotagem, não fez o seu papel e se rompeu no impacto. Streiff sofreu lesões no pescoço e teve fraturas nas vértebras C4 e C5, as mesmas que deixaram Frank Williams preso numa cadeira de rodas três anos antes, num acidente de estrada na França.

Philippe Streiff com a AGS pouco antes do acidente em Jacarepaguá — Foto: Reprodução

Philippe Streiff com a AGS pouco antes do acidente em Jacarepaguá — Foto: Reprodução

Não há imagens de toda a dinâmica do acidente. Um cinegrafista amador pegou apenas o momento em que o AGS explodiu contra o guard rail e passou por cima da tela por trás da barreira. Havia apenas quatro fiscais em todo o autódromo de cinco quilômetros. Os que chegaram ao local do acidente tiraram Streiff do carro, mas eles não tinham nenhum preparo médico para isso.

Para piorar, os mecânicos da AGS que se dirigiram ao local foram barrados. Foi possível ver Philippe mexendo braços e pernas. Só depois de longos trinta minutos uma ambulância chegou ao local da batida, e Streiff foi levado ao centro médico da pista.

Aliás, um parêntese: naquela época os testes não tinham um aparato adequado para resgate de acidentes, como ficara patente em 1986 quando Elio de Angelis se acidentou num treino em Paul Ricard (França) e morreu por inalação de gases tóxicos, o que poderia ter sido evitado caso a retirada tivesse sido corretamente executado.

Outra questão que contribuiu foi o hospital para o qual Streiff foi transportado. Não pela excelência da Clínica São Vicente, sempre referência no Rio de Janeiro. Mas pelo fato de que na época não existiam hospitais de primeira linha mais próximos do autódromo – a distância entre a pista e a clínica era de 26 quilômetros.

Para piorar, o piloto do helicóptero que transportou Streiff era de São Paulo e não sabia onde deveria pousar próximo à clínica localizada na Gávea, onde não havia heliponto. Nisso, mais tempo foi perdido. Pasmem vocês, a primeira tentativa de pouso foi na Praia de Copacabana. Quando finalmente se aproximaram do hospital, foi preciso subir uma ladeira com paralelepípedos. Convenhamos, não era o melhor dos cenários…

Desesperada, a esposa de Streiff, Reneé, que aliás havia chegado ao hospital antes do marido, ligou para o médico francês Gerard Saillant, amigo da família, em busca de orientação. Por sorte, um dos médicos da clínica havia sido aluno de Saillant, e foi realizada uma cirurgia de emergência. Enquanto isso, outros especialistas de São Paulo foram chamados às pressas. E o próprio Saillant embarcou imediatamente para o Rio.

Streiff com o companheiro Joachim Winkelhock na apresentação da AGS em 1989 — Foto: Reprodução

Streiff com o companheiro Joachim Winkelhock na apresentação da AGS em 1989 — Foto: Reprodução

– Ele estava lá no dia seguinte ao acidente e imediatamente salvou minha vida duas vezes quando meu coração começou a falhar. Ele é um verdadeiro salva-vidas. Sou grato a Renée por tê-lo chamado para vir. Sem ele eu teria morrido em 1989, com certeza – disse Streiff anos mais tarde.

Com o quadro de Streiff enfim estabilizado, o piloto poderia ter sido operado novamente no Brasil para a fixação da coluna. Mas a família optou por transportar Philippe para a Europa, e Saillant supervisionou a transferência para a França. Filho de Streiff, Thibault tinha apenas dois anos de idade e ficou no Rio de Janeiro sob os cuidados da equipe AGS. Nelson Piquet chegou a oferecer um avião para o transporte.

Fato é que, chegando à França, Philippe foi transportado para o Hospital dos Inválidos, em Paris. Lá, Saillant deu a Reneé a devastadora notícia de que Streiff estava tetraplégico. O médico disse que os equívocos no atendimento e no transporte rumo à clínica no Rio de Janeiro foram fundamentais para o quadro.

Dino Altmann, diretor médico do GP do Brasil de F1 — Foto: Divulgação

Dino Altmann, diretor médico do GP do Brasil de F1 — Foto: Divulgação

Diretor médico do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, Dino Altmann ainda não trabalhava com a categoria. Mas ouviu de colegas que estavam a par da condição clínica de Philippe Streiff que, apesar de todos os problemas no pós-acidente, o francês não deixou o Brasil tetraplégico:

– Na época, os cuidados não eram como os atuais, muito menos num teste, e ninguém sabe ao certo quem primeiro o atendeu e quem e como tirou o capacete dele. A verdade é que pelo que me contaram, ele necessitava de uma segunda cirurgia mas ainda não estava paralisado e seria transferido para realizá-la. Optaram por levá-lo de volta à França, e o resultado é o que sabemos – comentou Altmann ao F1 Memória.

Philippe Streiff com o médico Gerard Saillant, à esquerda — Foto: Divulgação

Philippe Streiff com o médico Gerard Saillant, à esquerda — Foto: Divulgação

Cinco semanas se passaram desde o acidente, e Streiff enfim despertou. Naqueles complicados dias na França, Philippe havia tido sua vida por um fio. Chegou a receber uma traqueostomia para poder respirar. Quando viu uma enfermeira, disse:

– Você precisa me tirar daqui, tenho de ir para o circuito em Jacarepaguá para o Grande Prêmio do Brasil!

Ouviu que estava na França, e que de fato era um fim de semana de corrida, mas do GP de San Marino, em Imola, segunda prova da temporada de 1989.

– Meu amigo Bertrand Balas trouxe uma TV para o meu quarto e assistimos ao GP de San Marino com Gabriele Tarquini no meu carro! Na minha cabeça, eu havia deixado os boxes algumas horas antes para testar novas rodas.

Philippe Streiff com Ayrton Senna em 1994 — Foto: Reprodução

Philippe Streiff com Ayrton Senna em 1994 — Foto: Reprodução

Philippe Streiff levou anos para recuperar os movimentos normais de respiração e para mexer os ombros. Sua casa teve de receber adaptações, e um amigo até hoje lembrado é Nicolas Sarkozy, futuro presidente da França. Na época, ele era prefeito de Neuilly-sur-Seine e casado com uma amiga de infância de Streiff.

Nos anos seguintes, Streiff retomou o contato com o ambiente da Fórmula 1, aconselhado por Frank Williams. Passou a se envolver na organização de eventos, como o festival de kart de Bercy. Em 1993, convidou ninguém menos do que os ex-companheiros de pista Alain Prost e Ayrton Senna. Graças a Streiff, eles tiveram um último duelo, vencido pelo francês.

Philippe Streiff visitando os bombeiros no GP de Mônaco — Foto: Reprodução

Philippe Streiff visitando os bombeiros no GP de Mônaco — Foto: Reprodução

Ainda hoje, Streiff se dedica ao cargo de conselheiro técnico do Ministério de Segurança Rodoviária da França. A grande luta de Philippe é evoluir constantemente os serviços e veículos de transportes de pessoas com deficiência física.

Fonte: Globo Esporte

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