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O que uma tetraplégica pode ensinar sobre ser feliz na própria pele? Lais Souza mostra que muito!

Posted by on set 17, 2018

A Lais Souza ginasta e medalhista todo mundo conhece, e a Lais atleta de esqui aéreo também, principalmente depois do meu acidente [em janeiro de 2014, enquanto treinava nos Estados Unidos, ela caiu, fraturou a vértebra C3 e perdeu os movimentos do pescoço para baixo]. Mas o que eu quero mostrar aqui é a Lais de hoje, que tem 29 anos e vive – muito bem, obrigada! – como tetraplégica. Uma história de ainda mais superação, inspiração e, por incrível que pareça, com final feliz.

Lógico que não é fácil depender dos outros o tempo todo ou apenas existir como cadeirante no Brasil, onde não há tanta acessibilidade e o nosso custo de vida é muito mais alto (sendo que as oportunidades de trabalho são o inverso, mega reduzidas). Mas acontece que, com tudo o que passei, aprendi a ver a vida com outros olhos. E é exatamente essa visão, mais sensível e humana, que quero compartilhar com vocês, leitores da Glamour.

Eu nasci em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e comecei a me dedicar ao esporte aos 4 anos. Com 13, já integrava a equipe brasileira de ginástica artística feminina. Ou seja, cresci me preocupando com a alimentação e em conseguir performar bem. Era bem complexo, eu pensava que tinha que zelar até pela qualidade dos meus músculos!Treinava muitas horas, lutava para manter o peso por causa das competições e encarava o meu corpo como uma ferramenta de trabalho mesmo.

Taí a primeira grande mudança que percebi nesses últimos quatro anos: antes, minha vida era bem física – academia, treino, dieta, ginásio, casa, descanso; hoje, é muito mais mental – aprendo e ouço mais, falo menos, leio muito… Sou totalmente o contrário do que eu era!

Lais Souza (Foto: Camila Cornelsen)

Lembro também de levar a estética muito a sério, o cabelo estava sempre lisinho e sem frizz, a roupa esticadinha. Hoje, só quero que algum look me favoreça sentada. Antes eu curtia mostrar meu shape atlético e os braços torneados; agora, como perdi muito peso, normalmente uso blusas de manga longa. Sem bad vibes, só é diferente, sabe?! Apesar disso tudo, ainda amo passar várias camadas de rímel, me sinto mulher calçando um salto, e continuo adorando a minha cabeleira, as minhas costas. Mas entendi que nada dura para sempre, e que você não vai levar beleza e roupa de marca para o caixão.

Antes, eu buscava resultados, medalhas. Hoje, depois de encarar tanta coisa, cada dia que passo bem e com saúde para mim já é uma conquista”

Engraçado como, ao longo da vida, as prioridades vão mudando. Antes, eu buscava resultados, medalhas. Hoje, depois de encarar tanta coisa, cada dia que passo bem e com saúde para mim já é uma conquista – porque é super comum que tetraplégicos tenham infecções urinárias constantemente e deformações pelo corpo todo. Veja: minha vida de atleta me fez quem eu sou e respeito muito isso. Aprendi a viver em grupo, a confiar nas repetições, nas restrições, na disciplina… Esporte é educação.

No meu caso, talvez tenha sido um pouco radical demais, mas não me arrependo. Pois foi esse passado que me ensinou a acreditar que tudo é possível. Agora, a minha busca é por liberdade, adaptação e um jeito mais fácil de viver no dia a dia. A gente tem mania de aumentar os problemas e um medo de tudo, né? Esquecemos que a felicidade está nos pequenos momentos. Em ter uma vida tranquila, com a mulher e a família, um certo conforto, levar os cachorros para passear na praia… Por isso, não quero que pensem que sou uma coitada.

Apesar de tudo, acho uma bênção eu ainda conseguir trabalhar e me manter – são muitas fraldas, sondas, terapeutas, médicos etc. E o melhor: compartilhando a minha verdade, inspirando pessoas com a minha história [Lais faz palestras em empresas e tem mais de 530 mil seguidores em seu perfil @lalikasouza no Instagram]. Porque não importa se você está de cama ou não, tem que ter a voz ativa. Não podemos achar que situações absurdas sejam normais, como uma cadeira de rodas custar R$ 23 mil.

Venho evoluindo bastante como indivíduo, e o meu corpo também. Treino quatro vezes por semana durante uma hora e meia, faço massagens regularmente e estudo muito. Já recuperei a sensibilidade em parte dos pés, braços, costas e barriga, e até fico em pé com ajuda do Ortowalk [equipamento médico estabilizador]. O que eu mais gosto nele, aliás, é que me devolve a sensação de olho no olho. A segurança da Lais que sempre correu atrás dos sonhos, essa que vos “escreve” aqui!

Fonte: Glamur

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