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Mulher se torna ativista depois de ficar paraplégica ao levar um tiro do ex aos 17 anos

Posted by on fev 8, 2019

Camila Domingues / Agência RBS
Carolina Santos ficou paraplégica aos 17 anos, após uma tentativa de feminicídio cometida pelo ex-namoradoCamila Domingues / Agência RBS

Do tiro disparado pelo ex que a deixou paraplégica à violência obstétrica, a porto-alegrense Carolina Santos aprendeu a seguir em frente. Não só por ela mesma. Vítima de violência e cadeirante, ela fez da própria experiência o motor para ajudar mulheres que passaram e passam pelas mesmas situações.

À frente do grupo Inclusivass, ela coordenou o projeto Todas São Todas, apoiado pelo Instituto Avon e Fundo Elas, em parceria com o Coletivo Feminino Plural e se tornou a porta-voz de diferentes causas. A seguir, ela conta como tudo mudou desde aquela manhã de domingo, quando a bala acertou sua coluna. E fala do tanto que ainda falta mudar.

Naquele ano de 1999, havia terminado uma relação de meses, talvez a mais linda da minha vida, aquelas em que descobrimos o amor. Estava me sentindo totalmente perdida, pois, em seguida, também saí do meu emprego. Comecei a estudar e iniciei uma nova etapa. Foi quando o conheci no ônibus, logo nos tornamos amigos. Um tempo depois, ele começou a me enviar cartas pelo correio mesmo morando a poucos metros de onde eu vivia, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Era um jovem como eu, e começamos a namorar em seguida.

Logo de início, vieram os primeiros sinais do que viria no futuro: ciúme, cuidado excessivo e possessividade. Os meses passaram, e dois fatos me chamaram a atenção. Um dia, achei uma carta embaixo do colchão da cama dele, em que ele se despedia de mim e da sua família, narrava ali que seu amigo, falecido meses antes, tinha vindo buscá-lo. Tive uma crise de choro e pedi explicação. E ele me disse com toda naturalidade que aquilo iria acontecer e que eu não sofresse. Tempos depois, me chamou até o quarto dos pais para me mostrar algo. Tirou do forro uma caixa e uma arma, e eu pedi que a guardasse logo, sem entender por ele havia me mostrado aquilo.

Camila Domingues / Agência RBS
Carolina levou um tiro e viu o namorado ser morto pelo ex quando tinha 17 anosCamila Domingues / Agência RBS

Quando seus pais se separaram, resolvemos morar juntos, pois eu estava morando em um lugar onde não conhecia ninguém e minha mãe estava refazendo sua vida após uma separação dominada por muita violência. Foi a pior coisa que fiz: tão jovem, tendo ao meu lado um cara que queria me controlar. Não podia ir sozinha ao mercado, ninguém podia ir lá em casa. Tudo piorou quando comecei a trabalhar. Ele me levava à parada de ônibus e me buscava, eu era vigiada o tempo todo.

No trabalho conheci meu anjo Marcelo. Se em casa eu era controlada, lá na fábrica havia uma pessoa maravilhosa que me tratava tão bem. Resolvi pôr fim à minha relação e me dar uma nova chance com o Marcelo. Mas, infelizmente, tivemos poucos dias juntos.

Foi no dia 23 de abril, uma manhã de domingo. Eu estava no banheiro quando escutei alguém bater à porta. Era meu ex. Conversamos durante alguns minutos e pedi que fosse embora. Ele voltou logo em seguida pelo pátio dos fundos. Pela janela, atirou em mim pelas costas, e perdi os movimentos das pernas na hora. Matou o Marcelo e, achando que eu havia morrido, atirou nele mesmo.

Fui levada para o hospital, e só soube da morte de Marcelo 15 dias depois. Descobri que não andaria em uma troca de plantão entre os médicos, mas não entrei em pânico, parecia que eu estava preparada para aquilo. Depois de passar por uma cirurgia na coluna, eu me sentei pela primeira vez em uma cadeira de rodas. Recomeçar era preciso. Eu precisava de um neurologista e não conseguia pelo SUS.

Resolvi contar minha história no jornal, e o fotógrafo me falou do Hospital Sarah Kubitscheck, de Brasília. Meses depois, consegui a vaga. Fiquei lá 21 dias: voltei antes da hora por ter me adaptado muito rápido. Lá aprendi a viver em uma cadeira de rodas, trocar de roupa sozinha, a fazer o controle fisiológico do meu corpo e que a gravidade da minha lesão não permitiria que eu voltasse a andar.

Aprendi a viver em uma cadeira de rodas, trocar de roupa sozinha, a fazer o controle fisiológico do meu corpo e que a gravidade da minha lesão não permitiria que eu voltasse a andar

Cheguei em casa mais independente. Comecei a estudar em uma escola nada adaptada, mas que me acolheu de braços abertos, concluí o segundo grau encarando falta de ônibus adaptado. Voltei a me relacionar e aprendi a conhecer o meu corpo e seus desejos.

Toda mulher que fica paraplégica ou tetraplégica tem dúvida sobre como a lesão medular vai afetar a sua sexualidade. Eu achava que jamais teria relação com um homem. Que nenhum iria querer uma mulher em uma cadeira de rodas. Mas o tempo me mostrou que estava errada. Outra barreira era a questão da acessibilidade, uma bandeira que defendi, inclusive narrando minhas experiências no meu blog para poder ajudar outras pessoas. Acabei ficando conhecida como Carol Acessibilidade. Mas, apesar de tudo, eu ainda me culpava pelo que havia ocorrido.

Em 2013, participei de um flashmob na Redenção, uma das atividades pelo fim da violência contra as mulheres, organizada pelo Coletivo Feminino Plural. Naquele dia, chorei muito e percebi que a culpa não era minha. E, então, entendi que poderia fazer algo por mulheres que, como eu, foram vitimas desta violência. Meu blog começou a ganhar um novo olhar, tive coragem de contar minha história de vida e passei a escrever e pesquisar mais sobre o assunto. 

No meio dessas tantas descobertas, depois de dois anos tentando, engravidei. Estava em uma relação há três anos com um homem deficiente visual e agora seria uma mãe cadeirante. Surgiram as dúvidas e os julgamentos. Até coisas como: “Tu és louca de querer ter um filho”. “Ele vai ter de cuidar de vocês, dois pais com algum tipo de deficiência.” Havia ainda a desinformação e a falta de acolhida. Era uma gestação de alto risco, tive infecção urinária quase até o fim, e as idas ao hospital foram muitas. A cada vez, escutava que iria perder aquele filho por estar fazendo o uso de tantos remédios. A cada consulta, um médico diferente me tocava, à mercê de profissionais sem nenhuma especialidade em mães cadeirantes. E eu e meu filho seguimos.

Foram 12 horas de trabalho de parto e muito sofrimento, pois meu corpo começou a dar sinais que nem eu nem os médicos sabiam identificar. Na sala de parto, tomada por médicos e estudantes que se acharam no direito de invadir o nosso momento, eu já pedia para morrer por não aguentar mais. Uma episiotomia e uma médica em cima da minha barriga resultaram na vinda do Roberth ao mundo.

Camila Domingues / Agência RBS
Carol virou uma ativista dos direitos das mulheres e das pessoas com deficiênciaCamila Domingues / Agência RBS

Em 2014, o Coletivo Feminino Plural me convidou para darmos início a um movimento de mulheres com deficiência, ideia realizada em um seminário de Políticas Públicas para Mulheres com Deficiência ocorrido em março do mesmo ano. Iniciei este trabalho sem ao menos saber como o faria, mas sempre com o apoio da Telia Negrão, que foi minha base para me tornar feminista e ativista. Em um segundo encontro com várias mulheres com deficiência, demos início ao Grupo Inclusivass, do qual fui coordenadora por três anos.

No meio de várias feministas, escutava palavras que nunca tinha ouvido antes e, depois, ia para o computador pesquisar o significado.

Fui descobrindo uma nova mulher, mais madura e dona de si. O trabalho pelas mulheres com deficiência e pelas que são vitimas da violência resultou em um filme que conta minha história de vida, Carol, de Mirela Kruel, totalmente acessível para as pessoas com deficiência, além de alguns artigos publicados em livros e reconhecimento pelo mundo afora.

Mas, no meio de tudo isso, ainda enfrento as barreiras diárias, como o desafio de sair de casa. A falta de acessibilidade nas ruas é um obstáculo para que eu possa fazer o meu trabalho pelas várias mulheres do Brasil. Mas sei que tenho de seguir por todas nós, mulheres que sofreram violência doméstica.”

Fonte: Donna

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