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Metade dos jogadores da seleção de rúgbi em cadeira de rodas sofreu lesão na coluna após mergulhos

Posted by on ago 25, 2019

Atletas que disputam os Jogos Parapan-Americanos relembram suas histórias e contam como o esporte transformou suas realidades

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O revés que mudou a vida do brasiliense José Higino aconteceu em 2002. Com o paulista Alexandre Taniguchi, foi em 2006. E também foi assim com o fluminense Gilson Wirzma Júnior e o catarinense Rafael Hoffmann, em 2007; com o paulista Lucas Junqueira, em 2009; e com o mineiro Davi Abreu, em 2010. As histórias deles foram marcadas por destinos semelhantes, com acidentes em mergulhos em piscinas ou praias que os deixaram tetraplégicos. E todos reencontraram no rúgbi em cadeira de rodas um sentido para suas novas realidades.

Os seis integram o grupo de 12 atletas da seleção brasileira da modalidade que, nesta sexta-feira (23.08), estreou com vitória nos Jogos Parapan-Americanos de Lima com um triunfo de 48 x 41 sobre a Colômbia. Neste sábado (24.08), o Brasil enfrenta o Canadá e os Estados Unidos e, no domingo (25.08), encerra a participação na fase eliminatória com os confrontos contra Argentina e Chile, quando espera sacramentar a classificação para as semifinais.

Higino conheceu o rúgbi durante tratamento na Rede Sarah. Foto: Saulo Cruz/CPB

“Quando eu tinha 17 anos, fui passar férias com minha família no Espírito Santo, em Itaipava, na praia. Aí, um dia, fui entrar no mar, a onda veio, eu pulei de ponta e bati a cabeça em um banco de areia”, recorda José Higino, 34 anos, capitão da equipe. “Na hora, não conseguia mais me levantar. Tiveram que me tirar da água para eu não me afogar e depois passei por todo o processo de cirurgia e reabilitação. Isso tudo com 17 anos”, prossegue.

“Sofri o acidente em janeiro de 2009. Fui furar uma onda na praia. Eu estava em Ponta Negra, no Rio Grande do Norte, e bati a cabeça em um banco de areia. Foi uma fatalidade. Bati a cabeça, quebrei o pescoço e perdi a sensibilidade do pescoço para baixo”, conta Lucas Junqueira.

Longe do litoral, a história se repetiu com Davi Abreu, desta vez em uma piscina. “Eu sofri o acidente em Campos Altos, fui operado em Uberaba e assim que terminou a operação me levaram para Belo Horizonte para a reabilitação”, recorda.

Em Lima, no Peru, todos falam com naturalidade sobre os acidentes. Não há peso ou mágoas nos discursos. E muito disso se deve ao papel transformador do esporte. “Levei mais ou menos três meses para ir ao Hospital Sarah de Belo Horizonte. E Deus colocou um campeonato para acontecer lá na época em que estava internado. Aí me levaram para ver e nove meses depois eu já estava com a equipe de Belo Horizonte, competindo e jogando rúgbi em cadeira de rodas”, lembra Davi.

Davi se adaptou rapidamente à modalidade. Foto: Saulo Cruz/CPB

“Toda vez que acontece um acidente desses, eles recomendam que a gente vá para o hospital de reabilitação. Tem o Sarah Kubitschek, o Lucy Montoro e vários outros. Lá, você aprende as coisas do dia a dia. Porém, a ressocialização, essa coisa de você ir para o mundo, eu conheci com o esporte. Eu aprendi no hospital de reabilitação como passo para a minha cama ou como uso uma cadeira melhor, mas foi convivendo com essa galera do rúgbi, fazendo viagens e tudo, que me reintegrei”, reforça o mineiro.

O mergulho em água rasa é a quarta causa de lesão medular no Brasil e se torna a segunda causa de lesões na medula durante o verão

Foi também no Sarah Kubitschek, mas em Brasília, que Lucas conheceu o rúgbi. “Fiz uma cirurgia no pescoço, coloquei uma placa de titânio, e dois meses depois comecei a fazer minha reabilitação no Sarah Kubitschek. Lá, aprendi muito sobre minha lesão e sobre o que ocorreu comigo. Eles me ensinaram a conviver com a lesão e as adaptações que eram necessárias para conseguir comer sozinho. Eles proporcionam muito essa visão de autonomia e independência, que é o que a gente mais procura depois da lesão”, diz.

“Depois disso, eles apresentam uma gama de modalidades que você pode participar. Eu já conhecia a natação e o basquete, mas me lembro de que quando vi esgrima em cadeira de rodas pensei: ‘Nossa, tem tudo mesmo’. Tem tênis de quadra, tênis de mesa, bocha… E foi aí que eu conheci o rúgbi e me apaixonei de cara. Eu, tetraplégico, achei que não conseguiria fazer muitas coisas. Mas quando vi um esporte de contato, dinâmico, isso encheu meus olhos. Gostei muito e desde então tenho voltado toda a minha atenção para o rúgbi”, continua Lucas.

Lucas, durante preparação para os Jogos Paralímpicos Rio 2016. Foto: Marcio Rodrigues/CPB

Transformação

Ciente da força que o esporte tem na vida das pessoas com deficiência, Davi comemora o fato de o rúgbi ter entrado em sua vida após o acidente. “Hoje, quando chego na equipe e vejo pessoas que não tiveram essa oportunidade tão rápido de conhecer o esporte, sinto que elas sofreram muito até conseguir”, diz o jogador, que defende a equipe Minas Quad Rugby, de Belo Horizonte.

“Conheço pessoas que passaram cinco, seis anos em casa, sem sair. Depois que começaram a fazer esporte tiveram um avanço. Eu sou feliz por depois de nove meses do acidente já começar essa ressocialização. Temos um garoto lá no time que com três meses do acidente já estava com a gente, jogando, viajando. Hoje ele já dirige e está completamente reabilitado”, reforça Davi, que está na Seleção desde 2013 e disputou o Parapan de Toronto 2015 e os Jogos Paralímpicos Rio 2016.

“O rúgbi transformou a minha vida e faço de tudo para que outras pessoas que passaram por coisas parecidas conheçam o esporte e tenham a vida transformada também”

José Higino, capitão da seleção brasileira 

O efeito foi o mesmo no capitão da equipe, José Higino. “Em 2010, oito anos depois do meu acidente, fiquei internado no Sarah Kubitschek em Brasília e na mesma data, por coincidência, ia ter um campeonato brasileiro de rúgbi lá. Eles estavam fazendo a divulgação, explicando sobre a modalidade, e achei interessante. Saí do Sarah, procurei o time que havia em Brasília e foi paixão à primeira vista. O rúgbi me mostrou que eu podia ir muito além. E olha que eu já tinha oito anos de lesão, estava experiente com a cadeira. Mas vi meus pares fazendo coisas que eu não conseguia, pessoas com lesões iguais e pensei: ‘vou investir nisso aí'”.

“O rúgbi me trouxe saúde, autoestima, independência e uma família no time. Hoje tenho um irmão que cuida de um time em Brasília, meu pai e minha mãe se envolveram, então foi um processo agregador legal. O rúgbi transformou a minha vida e faço de tudo para que outras pessoas que passaram por coisas parecidas conheçam o esporte e tenham a vida transformada também”, reforça Higino.

Perigo em águas rasas

Segundo a Sociedade Brasileira de Coluna (SBC), o mergulho em água rasa é a quarta causa de lesão medular no Brasil e se torna a segunda causa de lesões na medula durante o verão. A maioria das lesões atingem jovens na faixa etária de 10 a 30 anos e geralmente são localizadas na coluna cervical. Elas podem variar desde traumas musculares, como contraturas, que podem cicatrizar de forma mais precoce, até lesões e fraturas associadas a deslocamentos das vértebras, causando alterações neurológicas e perda de sensibilidade e da força muscular, podendo atingir os quatro membros do paciente.

José Higino não titubeia quando perguntado se poderia dar um conselho para evitar que mais pessoas sofram lesões graves na coluna por conta de acidentes como o dele ou de seus companheiros de time. “O primeiro é: quando beber, não pule de ponta na água. Muitos casos que a gente conhece são de pessoas que estavam embriagadas”, alerta. “O segundo é conhecer bem o lugar onde vai pular. Muita gente quer desbravar, pula onde não conhece o fundo e aí ocorre uma lesão. É preciso ter cuidado também ao pular na piscina. Não vou dizer para evitar pular de ponta, porque muitas vezes não acontece nada. Mas tem que ter cuidado para saber onde você vai mergulhar, porque é mais comum do que a gente imagina”.

Os conselhos são reforçados por dicas da Sociedade Brasileira de Coluna:

– Não mergulhe em águas turvas ou desconhecidas;
– Não mergulhe após ingerir bebida alcoólica ou substâncias que atrapalhem os reflexos;
– Evite empurrar os amigos para dentro da água;
– Tenha cuidado ao tentar ajudar uma pessoa que sofreu esse tipo de lesão: caso ela mexa a cabeça poderá piorar a lesão. O importante é imobilizar e chamar ajuda médica para adequada avaliação.

Galeria de fotos

Rúgbi em cadeira de rodas - Jogos Parapan-Americanos Lima 2019
Infográfico - Jogos Parapan-Americanos Lima 2019

Luiz Roberto Magalhães, de Lima, no Peru – rededoesporte.gov.br

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