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Lais Souza: “Mãe, você me ajudou a entender minha lesão”

Posted by on maio 9, 2017

O que você escreveria se tivesse que enviar uma carta para a sua mãe? Ou para os seus filhos? A ex-ginasta Lais Souza, 28 anos, aceitou o desafio de CLAUDIA e produziu um texto emocionante para sua mãe Odete Vieira, 58 anos.

“Sentir a água caindo no rosto, o cheiro do sabonete e as suas mãos me acariciando foi marcante demais. Depois de muito tempo hospitalizada, por causa de um acidente em Utah, nos Estados Unidos, que me deixou tetraplégica, foi você quem me deu o primeiro banho. Aquele momento me lembrou a minha infância, quando eu levava patinhos, baldinho e canequinha para tomarmos banho juntas.

Saí de casa muito cedo, aos 10 anos, para me dedicar ao esporte e me profissionalizar. O dinheiro da taxa para que eu pudesse fazer o primeiro teste para entrar na ginástica foi você quem me deu de presente. Tudo começou ali. De Ribeirão Preto, me mudei para São Caetano do Sul, depois para Curitiba e São Paulo. Nós sabíamos que nossa reaproximação ocorreria mais cedo ou mais tarde, apenas não imaginávamos que seria dessa maneira. Estávamos afastadas por causa dos treinos e, apesar de conversarmos sempre ao telefone, fazia quatro meses que não nos víamos.

Quando você me encontrou na UTI, eu não conseguia falar e sentia muita dor, mas estava lúcida. Até hoje, não sei como conseguiu tirar o passaporte, o visto e chegar aos Estados Unidos em dois dias – você diz que esse tempo pareceu uma eternidade. Quando entrou no quarto, me abraçou e me deu um beijo. Não disse uma única palavra, mas eu via seu misto de emoções, como sorria enquanto combatia a angústia. Acho que nem pode imaginar o quanto a sua presença foi fundamental para me acalmar.

Foi você quem me ajudou a entender a minha lesão e a dimensão de tudo que estava acontecendo. Passamos noites e noites sem dormir, porque eu estava com um problema nos pulmões e só conseguia respirar com seus cuidados. Sei que foi um baque fortíssimo para você pensar que eu poderia morrer. Mas suportou todas as dificuldades de forma madura e ficou firme. Isso me manteve forte e me fez continuar. Agora, sou eu que tenho medo de perdê-la.

Foi um processo de adaptação longo e difícil, você sabe. No começo, eu estava agressiva e sem paciência. Brigamos bastante nessa etapa. Mas, com esse seu jeitinho especial, foi passando por cima de tudo – até que entendi que, na verdade, você só estava tentando fazer o melhor. Tudo que aconteceu me fez agarrar-me a você novamente. E assim você invadiu a minha vida – ou eu invadi a sua, não sei.

Hoje, vejo você com outros olhos. Não consigo me imaginar sem tê-la por perto, cuidando de mim da cabeça aos pés. Sinto sua presença o tempo todo, quando você me veste, penteia meu cabelo, corta minhas unhas, troca a fralda, faz minha maquiagem e depilação. Às vezes, até me acompanha nas aulas da faculdade de psicologia ou nas sessões de fisioterapia. Você é a peça-chave na minha vida, mãe. Não canso de repetir.

É também uma verdadeira inspiração, veio de uma família muito pobre, trabalhou como garçonete em bufê, foi funcionária de fábrica de calçados e cá estamos hoje. Mãe, eu te amo e quero ficar ao seu lado até o fim dos meus dias, quando estivermos, as duas, bem velhinhas.

Fonte: Claudia.abril

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