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Jovem volta à rotina após fraturar coluna durante abdominal invertido: ‘Acordei de um pesadelo’

Posted by on ago 8, 2017

E se um dia seu corpo parasse? O que você faria?”. A pergunta é da jovem Marcelle Mendes Mancuso, de 23 anos, aos seus seguidores em uma rede social. Seu corpo parou depois que ela caiu enquanto fazia um “abdominal invertido” e fraturou a coluna em uma academia de São José do Rio Preto (SP).

Marcelle falou ao G1 sobre o episódio que, por pouco, não a deixou tetraplégica ou com sequelas neurológicas. “Jamais farei abdominal invertido novamente. Descobri um risco que achei que não existia”, conta.

O acidente aconteceu em janeiro de 2016. Ela ficou internada por 13 dias, mas o caminho até o total restabelecimento levou quase um ano. Durante três meses, precisou dos mesmos cuidados dedicados a um bebê.

“Não conseguia segurar nada, fiquei sem controle fisiológico, precisei usar fraldas. Minha mãe parou de trabalhar para voltar a cuidar de mim, me dar banho, me alimentar, tudo. Tive que começar do zero, como se tivesse nascido de novo, e acredito que nasci. Parece que dormi e acordei de um pesadelo, apenas com uma cicatriz a mais.”

Marcelle conta sua superação em post de rede social (Foto: Reprodução/Instagram )Marcelle conta sua superação em post de rede social (Foto: Reprodução/Instagram )

Marcelle conta sua superação em post de rede social (Foto: Reprodução/Instagram )

Marcelle estava no último ano de Direito e ia começar a fazer cursinho para prestar a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ela diz que no dia do acidente resolveu fazer uma aula experimental na academia que ficava perto do cursinho.

Ela caiu ao fazer o “abdominal invertido”, em que o aluno fica pendurado pelos pés de cabeça para baixo, que ela já tinha feito várias outras vezes em outra academia.

“Fiz o treino normalmente, corri na esteira e tal. Aí, como gostava de fazer aquele exercício [abdominal invertido], pedi apoio para o personal que estava na academia, que era um estagiário, e ele foi me ajudar. Ele pegou a faixa para me prender e fiz as primeiras séries com ele sentado no meu pé, mas aí pedi para ele me dar suporte nas costas, que era como estava acostumada a fazer”, lembra.

Durante o exercício a faixa que a prendia pelos pés arrebentou e ela caiu de cabeça no chão. Marcelle não sabe dizer o que aconteceu. Ela só se recorda de uma médica, que treinava ao seu lado, colocar a mão em sua perna e perguntar se a sentia.

“Não sei o que aconteceu na hora, não sei se o estagiário estava conversando ou distraído. A faixa arrebentou e cai de ponta cabeça. Caí meio que em cima dos pés dele e não deu tempo dele me segurar. Por reflexo, tentei levantar, mas meu corpo não se mexia.”

Marcelle ficou com uma cicatriz da cirurgia no pescoço: Marcelle ficou com uma cicatriz da cirurgia no pescoço:

Marcelle ficou com uma cicatriz da cirurgia no pescoço: “Meu mais novo charme”, diz (Foto: Renata Fernandes/G1)

A intervenção da médica no momento do acidente pode ter sido o fator determinante para o sucesso da recuperação. Foi ela quem impediu que alguém mexesse em Marcelle e chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

“Se a fratura fosse instável e alguém tivesse mexido nela de modo incorreto, ela poderia ter tido uma lesão medular pelo socorro inadequado”, afirma o neurocirurgião Sérgio Tadeu Fernandes. Ele ressalta que, em casos de lesão da coluna vertebral, o tipo de socorro faz todo o sentido e a diferença. “Socorrer um paciente de modo errado pode provocar lesão ou agravar uma já existente.”

Segundo o boletim de ocorrência, a estudante fraturou a quinta vértebra e teve uma lesão na medula. Marcelle diz que, de acordo com os médicos que a atenderam, ela quebrou a quinta vértebra, desalinhou a quarta e a sexta, e teve uma compressão medular.

A jovem teve de fazer fixação cirúrgica de uma articulação (artrodese) e enxerto ósseo. Ela agora tem na coluna uma placa de titânio e seis parafusos.

Marcelle mantém placa de titânio e seis parafusos na coluna (Foto: Reprodução/Instagram)Marcelle mantém placa de titânio e seis parafusos na coluna (Foto: Reprodução/Instagram)

Marcelle mantém placa de titânio e seis parafusos na coluna (Foto: Reprodução/Instagram)

Fé e superação

Marcelle conta que na hora do acidente conseguiu manter a calma. “Tinha noção que seria algo sério, porque não conseguia mexer nada. Por instinto, só fechei os olhos e rezei. Rezei muito e pedia a Deus para não deixar nada de ruim acontecer comigo. Tentei não ficar em desespero.”

Ela diz que o importante era passar tranquilidade para seus pais e não piorar o que já estava difícil. “Já estava em uma situação que não era fácil, pensava em aceitar o que fosse meu destino. Engraçado que, antes de entrar para a cirurgia, pela primeira vez, vi minha mãe chorar muito. Virei para ela e disse: ‘vai dar tudo certo, mamãe’. Precisava dar forças a ela que sempre foi uma fortaleza e nesse dia a vi desmontar”, afirma.

A mãe de Marcelle, Maria Emília Mendes, credita a recuperação da filha à intercessão de madre Teresa de Calcutá, aos profissionais que a atenderam e à dedicação da filha.

“Me emociono ao lembrar, mas antes dela ir para a cirurgia uma junta médica se reuniu e me disse que ela poderia não voltar ou voltar com muitas sequelas.”

Emília diz que ficou desnorteada com a notícia, mas enquanto andava pelo hospital achou uma capelinha e entrou. “Ajoelhei e a madre Teresa veio à minha cabeça. Pedi a ela, de quem sequer era devota, que intercedesse e fizesse minha filha feliz, independentemente de como isso seria, se em uma cama, em outro plano, apenas pedi que a fizesse feliz”, conta.

Já Marcelle atribui sua recuperação a um conjunto de fatores. “Primeiro agradeço a Deus, que me deu uma segunda chance. Fui atendida rapidamente e de maneira eficaz, o que foi essencial. Tive o respaldo de profissionais excelentes, desde o dia do acidente até durante a recuperação, em que dois ótimos fisioterapeutas se revezavam durante o dia para me ajudar a voltar a andar e a me mexer. Fui abençoada demais”, diz.

Correr está entre os novos hábitos praticados por Marcelle (Foto: Renata Fernandes/G1 )Correr está entre os novos hábitos praticados por Marcelle (Foto: Renata Fernandes/G1 )

Correr está entre os novos hábitos praticados por Marcelle (Foto: Renata Fernandes/G1 )

Investigação

O Conselho Regional de Educação Física de São Paulo (CREF4/SP) abriu processo para apurar o acidente e, segundo a assessoria de imprensa do órgão, o caso esteve no âmbito da Comissão de Ética Profissional para análise da conduta dos profissionais envolvidos e responsáveis pelas atividades na situação.

A assessoria informou que foi instaurado processo ético disciplinar ao profissional envolvido pela conduta de comportamento antiético e ainda está em fase de julgamento. Na semana do acidente um técnico do CREF esteve na academia para vistoriar os equipamentos do local.

O caso também foi encaminhado para a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e, segundo a delegada Dálice Ceron, não foi adiante na esfera criminal porque foi registrado como lesão corporal culposa, quando não há intenção, e a família não quis representar. “Esse crime é de ação penal condicionada, condicionada à vontade dela, que não requereu providências policiais”, diz.

Fonte: G1

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