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Eletroestimulação ajuda pessoas com paraplegia

Posted by on ago 2, 2018

Projeto usa aparelhos desenvolvidos na UEL para estimular os músculos das pernas de pessoas com paraplegia e recuperar movimentos e habilidades

Caminhar é uma ação tão natural aos seres humanos que a grande maioria não reflete que se trata de uma atividade complexa do ponto de vista fisiológico. Andar exige uma série de ações neurológicas e motoras que podem ser influenciadas tanto pelo meio ambiente quanto por condições psicológicas.

Pessoas com deficiência de mobilidade, ao contrário da maioria, pensam em tudo isso, especialmente se forem, por exemplo, portadoras de alguma paraplegia. Todos estes aspectos têm sido observados no projeto de pesquisa “Controle de Movimento da Articulação de Membros Inferiores em Paraplégicos”, coordenado pelo professor Ruberlei Gaino (Departamento de Engenharia Elétrica). O estudo tem o objetivo de implementar um sistema eletrônico de eletroestimulação funcional capaz de gerar movimentos nos membros inferiores de participantes paraplégicos e ajudar em sua reabilitação. O aparelho foi desenvolvido pelo próprio projeto, numa parceria entre a UEL e a Universidade Estadual Paulista, Câmpus de Ilha Solteira (UNESP/FEIS). Os resultados têm sido muito positivos, com reabilitações parciais e até totais. Mais que isso: o desenvolvimento do equipamento já rendeu três patentes.

O projeto começou a se desenhar há quase 20 anos, quando o professor Ruberlei fazia seu Doutorado na UNESP/FEIS e se aprofundou na Engenharia Biomédica, área em expansão que integra conhecimentos de Ciências Exatas e da Saúde e faz abordagens inovadoras na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças. Lá, trabalhou com neuroestimuladores em vários sujeitos. Embora explique que a tese foi mais teórica do que aplicada, o professor destaca a importância de a Universidade incentivar os professores a investir em pesquisas, produzir conhecimento e trazer resultados que mais tarde – como ficou demonstrado – geraram outras pesquisas mais aplicadas e resultados válidos observáveis.

Ruberlei destaca também uma pesquisa de Mestrado da mesma UNESP, de 2012, que marcou por ser a primeira dissertação do país a apresentar resultados a partir da aplicação da chamada “malha fechada”, ou seja, de estímulos nos músculos das pernas numa posição predefinida, visando o movimento de caminhada. Até então, os estímulos elétricos não eram aplicados em pontos específicos, mas nos membros como um todo (malha aberta), e sem sensores para obter dados mais detalhados. Outra vantagem da malha fechada é que ela diminui a fadiga muscular, o que é bom para o sujeito pesquisado.

Procedimento

A eletroestimulação chegou ao Brasil em 1988 e conseguiu reabilitar um grande número de pacientes, consolidando-se como uma técnica eficiente, embora não a única – as pesquisas com células-tronco, por exemplo.

Porém, eletroestimular os membros inferiores não é apenas aplicar sinais elétricos nas pernas. A aplicação do estímulo é tão complexa quanto o ato de caminhar. Por isso o projeto envolve muitas áreas como Neurologia, Enfermagem, Terapia Ocupacional, Engenharia, Mecânica, Matemática, Química, Física, Biologia, Educação Física e Computação – segundo o próprio professor Ruberlei. Isto porque, ele lembra, muitos fatores interferem nos testes. “Dependendo do estado emocional do sujeito, e até se foi ou não ao banheiro naquele dia antes do teste, os resultados saem diferentes”. É bom lembrar que para um cadeirante, por exemplo, ir ao banheiro é uma tarefa difícil e muitos necessitam da assistência de outra pessoa. Some-se isso a detalhes como dor, espasmos, uma bolsa de colostomia, mau humor e até barreiras arquitetônicas (escadas), e é possível ter uma ideia das dificuldades enfrentadas. Ainda assim, o professor é taxativo: “Aprendemos muito com os deficientes. Vemos como eles precisam da colaboração que podemos dar. Voltamos todo o nosso esforço para eles, como seres humanos, e não para os resultados em si”, afirma.

A estimulação segue modelos validados e conhecidos da literatura na área e envolve cálculos complexos de algoritmos, segundo informa o professor Márcio Roberto Covacic (Departamento de Engenharia Elétrica), participante do projeto. É ele quem estuda esta parte teórica e realiza tais cálculos, seguindo modelos matemáticos. Explica que há modelos padrões, ajustados especificamente para a pesquisa, que leva em conta, entre outros, os dados biométricos, como o IMC (índice de massa corpórea).

Outro integrante do projeto é Anderson Ross Biazeto. Atualmente na Universidade Federal da Grande Dourados (MS), ele se graduou e obteve o título de Mestre na UEL (2016), orientado pelos professores Ruberlei e Márcio. Também é Doutorando na UNESP/IS e responsável por uma das patentes registradas pelo projeto – um estimulador de caminhada por eletroestimulação. Em sua própria pesquisa, realiza testes com um sujeito paraplégico e um hígido (controle) com lesão medular T-8. Aqui já existe uma novidade: é mais comum aplicar os eletroestímulos, com sucesso, em lesões lombares. A pesquisa de Anderson avança neste sentido.

Anderson observa que os testes têm fornecido dados mais estáveis à medida que os modelos teóricos e os equipamentos avançam. “Os algoritmos estão funcionando no controle de movimentos”, resume.

O êxito na reabilitação (parcial ou total) de paraplégicos anima os pesquisadores, que querem prosseguir e avançar mais nas pesquisas, embora manifestem as dificuldades de fazer pesquisa no Brasil. O professor Ruberlei destaca alguns outros avanços, como microestimuladores de coluna e pernas e exoesqueletos (visados até para uso militar, e não terapêutico). Por outro lado, há muito a progredir, como o tratamento para paraplegias causadas por poliomielite. Para ele, tais conquistas só serão possíveis com muito apoio. “Por isso agradeço primeiro a Deus, depois à UEL e órgãos de financiamento, além dos colegas e pós-graduandos da UNESP”.

Fonte: UEL

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