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Cadeirante prova que é possível superar preconceitos

Posted by on fev 3, 2019

O engenheiro Leandro Fernandes Mazoni, com o treinador, na academiaThomaz Marostegan/Especial para a AAN

O engenheiro Leandro Fernandes Mazoni, com o treinador, na academia

“Ai, tadinho! Ele é tão novo… Que dó!”. Frases como essas são comuns na vida de Leandro Fernandes Mazoni, de 31 anos. Formado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o engenheiro de alimentos já se acostumou a manejar a cadeira de rodas, com a qual conviverá pelo resto de sua vida. Em janeiro de 2007, uma lesão na quinta vértebra cervical do pescoço, ocorrida na borda de uma piscina, o deixou tetraplégico aos 19 anos.
As limitações apareceram e vieram acompanhadas do preconceito em todos os lugares: bares, shoppings, e até mesmo, em ruas do distrito de Barão Geraldo, local onde mora há pouco mais de uma década. “Passei muito tempo da minha vida mexendo apenas os olhos e a boca”, contou.
Em meio a tantas barreiras, Mazoni encontrou na academia estímulo para superar as adversidades sociais e o preconceito. “Minha lesão, felizmente, não é completa. Isso me permitiu, com o tempo, e com muito esforço, voltar a mexer meus braços e retomar parte da sensibilidade nas pernas e em alguns membros. Se ela fosse completa, eu não mexeria meu corpo e dificilmente teria a independência que tenho hoje”, explicou.
Apesar do esforço sobrenatural, sua participação na academia ou em qualquer lugar não passa despercebida por frequentadores. Alguns olham com estranheza. Outros com admiração. Mas o fato é que ele dificilmente escapa dos holofotes. “As pessoas me veem como um ‘coitado’ e isso me incomoda, porque eu não me vejo assim. Na verdade, isso não existe para mim, porque eu me considero uma pessoa normal, como outra qualquer.”
Muita luta
Quando mais jovem, o agora engenheiro também encontrou dificuldades. Na Unicamp, por exemplo, só conseguiu se formar depois de muita luta. “Era comum perguntarem para minha mãe qual era curso a distância que eu fazia, como se a minha limitação fosse uma justificativa que me proibisse de sair de casa”.
Além do preconceito, Mazoni tinha um segundo obstáculo: a infraestrutura da universidade. “Foi bastante desafiador, porque não haviam prédios adaptados e aptos para me receber. Por sorte, encontrei alguns professores que foram bem prestativos e ajudaram-me a concluir a formação em um ambiente que não era nem um pouco inclusivo”, lembrou.
Ele é sincero ao contar que não consegue lidar com naturalidade com o preconceito que sofre todos os dias. “Quando vou ao bar, sou julgado por pessoas que entendem que não posso estar ali desfrutando daquele momento. Se eu vou comprar roupas, é comum que atendentes falem com a pessoa que está me acompanhando e virarem a cara para mim. É difícil lidar com isso o tempo todo”, ressaltou.
Atualmente, Mazoni trabalha na área de análise de dados de um dos maiores aplicativos voltados para a entrega de ramos alimentícios do País. Na empresa, desde 2017, ele se sente em casa, já que seus colegas o tratam de maneira inclusiva e natural. “Os ambientes precisam ser mais inclusivos para que as pessoas possam fazer suas atividades normalmente”, opinou.
Academia
Todo mês, o cadeirante Leandro Fernandes Mazoni segue um ritual: entra no estacionamento da academia Six Fitness, em Barão Geraldo, onde bate ponto religiosamente de três a quatro vezes por semana. O instrutor Lucas Wuo o ajuda no treino, cujos exercícios têm como objetivo principal fortalecer os membros superiores para que Leandro possa ter mais autonomia nas tarefas diárias.
Para isso, o instrutor faz adaptações que priorizam os aparelhos com bases mais largas e apoio nas costas, além de usar uma luva de velcro com garras para auxiliar a pegada dos objetos. “O treino apresenta poucas adaptações e está prescrito dentro das limitações dele. Mas, ao mesmo tempo, é um treino bem similar ao de um indivíduo que não possui nenhuma lesão medular” , explica o professor.
Para aqueles que possuem alguma limitação física e acham que não podem fazer coisas simples, como frequentar uma academia, um bar ou uma festa, por exemplo, Leandro dá o recado: “mexa-se, porque você é capaz”.
Fonte: Correio

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