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Bruno Landgraf – Ao sabor do vento

Posted by on ago 10, 2017

Quando tinha 20 anos, o paulistano Bruno Landgraf era um promissor terceiro goleiro do São Paulo Futebol Clube – cotado para se tornar o sucessor do ídolo do time, Rogério Ceni. Já frequentava também as seleções brasileiras de base – conquistou a Copa do Mundo sub-17 de futebol, em 2003, na Finlândia, e foi terceiro lugar no Campeonato Mundial Sub-20 de 2005, nos Países Baixos. Na madrugada do dia 11 de agosto de 2006, um acidente automobilístico na rodovia Régis Bittencourt interrompeu a carreira do jovem goleiro. Bruno teve um gravíssimo deslocamento na coluna e ficou tetraplégico numa batida de carro que matou o companheiro de clube Weverson e a amiga Natália Lane, jogadora de vôlei. Passou oito meses internado, sendo que três sem falar, outros três sem comer. “Falavam que eu só mexeria os olhos e ficaria vegetando na cama”, relembra. Contrariou os prognósticos e desenvolveu uma leve sensibilidade nas pernas, além de ter força nos braços e no tronco. Em 2008, passou a velejar na represa de Guarapiranga, na Região Metropolitana de São Paulo. E rapidamente se destacou como timoneiro. Ao lado de Elaine Cunha na Classe Skud 18, foi o primeiro velejador brasileiro a se classificar para as Paraolimpíadas. Nos Jogos de Londres, em 2012, terminou a competição em 11º. Nos Jogos Rio 2016, com a parceira Marinalva de Almeida, ficou em oitavo lugar. Para 2020, o Comitê Paraolímpico Internacional (IPC) decidiu que a vela adaptada não fará parte das Paraolimpíadas de Tóquio. “Um golpe devastador para o esporte”, avalia Bruno, agora com 31 anos.

Esporte de Fato – Como foi sua evolução física após o acidente?

Bruno Landgraf – Minha lesão foi muito alta, pegou cervical nível C3/C4, que afeta a parte respiratória e os movimentos. O diagnóstico dos médicos era que eu só mexeria os olhos e só conseguiria respirar com ajuda de aparelhos. Com a reabilitação, respiro sem os aparelhos e venho conseguindo ganhar força nos braços e no tronco. Fiz recentemente uma cirurgia na mão direita, para melhorar o movimento fino. Agora, vou fazer a reabilitação para fortalecer o músculo que foi mexido na cirurgia e recuperar alguns movimentos, o que vai me dar mais autonomia. Logo em seguida, farei a mesma cirurgia na mão esquerda.

 

Esporte de Fato – Como a vela surgiu na sua vida?

Bruno Landgraf – Foi no finalzinho de 2007, começo de 2008. Eu conhecia a vela pela televisão, mas nunca tinha entrado num barco. Fui convidado pela Berenice, do Clube Paradesportivo Superação, que fica na represa de Guarapiranga. Logo começamos a treinar e disputar competições.

 

Esporte de Fato – Qual é o principal atrativo da vela para um portador de deficiência física?

Bruno Landgraf – A vela é dos esportes que mais inclui pessoas com deficiências físicas. Com a adaptação certa, qualquer pessoa consegue velejar. Dependendo do grau de comprometimento dos movimentos que a pessoa tem, um tipo de adaptação pode ser feito. Eu uso uma cadeira adaptada com um motor. Conforme o barco aderna, eu consigo apertar um botão de um lado ou do outro para que a cadeira fique reta. Isso mantém o barco na direção desejada.

 

Esporte de Fato – Após os Jogos do Rio, qual o panorama da vela adaptada no Brasil?

Bruno Landgraf – Há um impasse. Estamos proibidos de utilizar os barcos usados nas competições paraolímpicas desde o final dos jogos Rio 2016, o que está prejudicando muito a preparação. Os barcos estão com o Ministério dos Esportes e estamos aguardando uma decisão para que possamos treinar. Quando os barcos forem liberados, a nossa intenção é trazê-los para São Paulo e voltar a treinar e disputar campeonatos, para não deixar a vela adaptada parar. Mas, se o pessoal que atualmente toma conta da vela paraolímpica brasileira continuar à frente do esporte, eu não pretendo continuar competindo. Não é uma gestão séria e em nenhum momento pensam nos atletas.

 

Esporte de Fato – Qual foi o impacto da saída da vela adaptada das Paraolimpíadas de Tóquio para os praticantes da modalidade?

Bruno Landgraf – Sem a vela nas Paraolimpíadas, o apoio, que já sabíamos que iria diminuir após os Jogos Rio 2016, reduziu ainda mais. Até outubro do ano passado, eu tinha um patrocínio do Time São Paulo, uma parceria do governo paulista com o Comitê Paraolímpico do Brasil. Foi renovado para algumas modalidades, mas como a vela paraolímpica ficou fora dos Jogos de 2020, o meu convênio foi encerrado. A perda de apoios e visibilidade são muito ruins para qualquer esporte. Mas a gente continua na luta para conseguir mais patrocinadores, para melhorar o treinamento e os resultados da vela adaptada brasileira.

Autor: Luiz Humberto Monteiro Pereira

Fonte: Esporte de Fato

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