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Curiosidade e Informação sobre Lesão Medular

“Acredito que atingi toda a felicidade possível na minha condição”, diz tetraplégica Sabrina Ferri

Posted by on maio 7, 2019

Sabrina Ferri, de 39 anos, de Porto Alegre, ficou tetraplégica após cair de um balanço na Praia do Rosa, em Santa Catarina. Formada em Educação Física e atleta amadora, ela não parou. Ativista da causa, ela participa da Wings For Life World Run, corrida global beneficente pela cura da lesão medular desde a primeira edição no Brasil, em 2014. Neste ano, vestida com suas já tradicionais asas de anjo na corrida no Rio de Janeiro, ela correu, com o apoio de amigos, 8.43 km

Sempre gostei de me exercitar, quando era criança queria fazer algo diferente, equitação, natação, vôlei, acabei fazendo balé, capoeira, jiu jitsu e, adulta, corria muito, quando ainda não era moda. Nunca fui atleta, não sou ainda, posso me considerar atleta amadora, sempre gostei de fazer exercícios físicos e do contato com a natureza, por isso me formei em Educação Física e visito sempre a Praia do Rosa, em Santa Catarina, onde tenho casa e foi onde eu fiquei tetraplégica. O acidente aconteceu em 2008, cai de um balanço que ia há 10 anos. Como sempre me balançava e me divertia com meus amigos nunca tinha parado para pensar que era arriscado, lembro de ter escutado uma vez de um argentino que caiu e quebrou a perna, mas só isso. Eu nunca fui uma pessoa de sentir medo, a gente não reflete muito sobre isso, depois muita gente me falou que percebia essa falta de medo em mim. O dia em que aconteceu o acidente era mais um dia normal de praia. Era 24 de maio, feriado de Corpus Christi, fazia sol, fiz café da manhã, chamei minhas amigas, era era despedida do verão. Fomos todas para a praia e antes das 12h eu fui para o balanço. Escorreguei. Foi coisa de segundos, estava em uma altura de 7 metros e quando abri os olhos estava no chão. Já não mexia nada, sentia uma dor no pescoço e tentava não acreditar que aquilo estava acontecendo. Eu sabia que algo bastante grave. Foi difícil ver que as pessoas ao meu redor não sabiam bem o que havia acontecido. Eu não conseguia mexer nada, então logo pensei que tinha perdido o movimento dos meus membros.

Minha vida mudou. Comecei tratamentos para a cura da lesão, frequentei hospital referência em Brasília, não tive muitos resultados, então fui para a Itália e lá, durante a reabilitação, tive certeza de que eu não ia conseguir melhorar muito. Se você não tem uma melhora significativa motora em um ano e meio é difícil que aconteça. Eu já havia passado desse prazo e estava há três meses na Itália. Foi lá que encontrei muitas pessoas com lesão alta e com diversas condições, muitos mexem os braços, mas não tem movimento de mãos e dedos. Não tive melhora significativa, mas faço terapia todo dia, é muito importante e não só para quem quer voltar a caminhar, é para manter. Eu faço todo dia fisioterapia é muito importante e não é só pra quem quer voltar a andar, é para não ter encurtamento de tendões, por conta da postura, tudo isso precisa ser trabalhado diariamente. Depois do acidente, isso passou a ocupar muito do meu tempo e é muito cansativo, por isso vendi minha empresa, tinha uma loja de produtos naturais, algo que era uma novidade nos anos 90 e amava, mas não dava mais, fiquei três anos para me reabilitar, depois cinco anos no trabalho, é muito desgastante, então optei por vender e passei a me envolver mais ativamente na busca pela cura da lesão medular.

Sabrina Ferri (Foto: Arquivo pessoal)

Foi quando conheci as meninas do grupo Cure Girls, elas leram um texto que escrevi no meu blog contando do acidente e me chamaram para aWings For Life World Run, era a primeira edição em 2014, como sempre gostei de correr, fui. E nunca mais parei. A ONG Wings For Life foi criada pelos austríacos Dietrich Mateschitz, dono da Red Bull, e Heinz Kinigadner, o primeiro campeão mundial de motocross da Áustria, após o filho de Heinz ficar paraplégico. Por isso, a corrida traduz tudo que queremos alertar para as pessoas sobre a discussão de doação de medula óssea. É um compromisso que eu tenho para a vida, aconteça o que acontecer. E o meu maior incentiva para isso é pensar nas 3 milhões de pessoas que estão em uma cadeira de roda no mundo. A lesão medular é uma condição que deixa a pessoa mais incapacitante. Estão todos saudáveis, é só uma condição motora e não tem nada mais angustiante do que ver uma pessoa que tem a vida interrompida bruscamente dessa maneira. Por isso, hoje, faço visitas a instituições no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Tento estar em espaços de discussão e de estudo  para dar voz às pessoas que estão na cadeira de rodas. Elas precisam se sentir seguras e apoiadas. Se não tem ninguém próximo em uma cadeira de rodas é difícil, ninguém tem essa dimensão do que é viver assim.  Aconteceu comigo, mas poderia ter acontecido com amigo meu. Não tenho nenhum trauma, tanto que ainda tenho na capa do meu Facebook uma foto minha no balanço em que sofri o acidente, não tenho problema nenhum com isso, é um lugar que eu adoro, sempre adorei e continuo indo para lá, é um lugar que me faz feliz. Eu me considero uma pessoa feliz. Acredito que atingi toda a felicidade possível na minha condição, estaria mais feliz se estivesse andando, mas alcancei toda a felicidade que me era possível, tenho família e amigos que apoiam, consegui viajar para vários lugares do mundo, apesar de me arrepender de não ter feito um mochilão quando era jovem, devia ter trancado a faculdade para fazer isso, mas eu sou determinada. Minha maior conquista é conseguir me manter lúcida depois de tudo que aconteceu e lutar pelo meu maior sonho: a cura da lesão medular.

Fonte: Revista Marie Claire

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