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A nova vida de Laís Souza: casamento e filhos

Posted by on jan 20, 2019

“Vem cá, filho”, grita Lais Souza ao ver o Golden Retriever grandalhão Skank entrar na sala ao lado da piscina do prédio onde vive, em Vila Velha (ES), num dos raros momentos em que a ex-ginasta altera o tom de voz suave e sereno. O cachorro de oito meses e o gato “vira-lata” Baguera são os xodós da ex-atleta, que diz estar “treinando” com os bichanos para realizar um grande sonho no futuro: ser mãe. Há dois anos, Laís namora Paula que, discreta ao extremo, prefere manter o anonimato e não acompanhá-la em entrevistas. “Ela é uma menina muito generosa, verdadeira. Não é todo mundo que namoraria uma tetraplégica, sabe…”, conta Laís, que diz estar se recuperando de uma espécie de crise dos 30 anos, completados em dezembro passado. No próximo dia 27, ela encara outra data marcante: cinco anos do acidente de esqui que a deixou inerte do pescoço para baixo após o choque em uma árvore, em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Ela admite que aquela tarde trágica ainda atormenta seus pensamentos; no entanto, diz estar realizada e com planos de um futuro mais tranquilo, de frente para o mar.

A decisão de trocar de estado – se dividia entre São Paulo e sua cidade natal, Ribeirão Preto (SP) – não se deu apenas por influência da parceira, capixaba, ou pelo desejo de melhor qualidade de vida, mas também por questões financeiras. Laís vive hoje num apartamento de médio-alto padrão, na orla da praia de Itaparica, num prédio com uma ampla academia e piscina, e aluguel na casa dos 2.000 reais – ela recebe uma pensão vitalícia do governo federal (que, em 2019, passou para 5.839,45 reais), tem um patrocinador fixo e faz palestras esporádicas para cobrir as despesas mensais que incluem 2.000 reais só com sonda para urinar. “Acordar e olhar o mar, essa imensidão, é impagável”, diz contemplativa, em sua cadeira de rodas já bastante gasta, que prefere não trocar justamente para guardar dinheiro. Laís está na fase do ‘desapego’: abriu mão de jantares caros e roupas de grife para focar no futuro ao lado de Paula, com quem espera se casar ainda neste ano. Pelos vizinhos e funcionários do prédio, o casal é visto como educado e alegre. Os comentários sobre sua orientação sexual não incomodam. “No começo, as pessoas pareciam se importar mais com o fato de eu ser gay do que deficiente física”, conta, sem perder o sorriso.

O vestido branco rendado, bem leve, alivia o calor de 35 graus e deixa à mostra suas tatuagens: as argolas olímpicas com as inscrições dos Jogos que participou, na perna, e a representação de um cadeirante levantando, no pulso. Ela não perdeu a esperança de voltar a caminhar, mas diz estar resignada com seu quadro “estagnado” e celebra pequenos momentos de independência, como responder e-mails e mensagens nas redes sociais com a ajuda de uma caneta presa à boca ou ao comando de voz do celular. Laís acorda cedo e faz sessões quase diárias de fisioterapia que a preservam seu “espírito de atleta”. Imagens suas utilizando um estabilizador que a mantém de pé, ou mexendo os ombros, costumam emocionar seus mais de 600.000 seguidores no Instagram. Lais, que recentemente perdeu um irmão e se distanciou dos pais, admite viver em permanente fase de aceitação, mas celebra seu momento atual. “Nestes cinco anos tive muitos altos e baixos. Não imaginei que fosse sentir adrenalina de novo, que fosse me apaixonar, que alguém fosse gostar de mim. Eu estava muito negativa e hoje percebo que é totalmente diferente, que não é a cadeira que me faz ser melhor ou pior, mais feia ou mais bonita.”

Durante a entrevista, entre um e outro pedido para ajeitar seu cabelo, Laís detalhou seus planos e sonhos, falou sobre sua amizade com Neymar, que a ajuda em seu tratamento, e, de carona no “desafio dos dez anos” que faz sucesso nas redes sociais, contou como se imagina daqui uma década. Só evitou um tema, política, assustada com a polarização provocada pelas últimas eleições. “As pessoas tratam como se fosse time de futebol”.

Por que decidiu se mudar para Vila Velha? Eu buscava um novo estilo de vida. Na verdade, uma melhor qualidade de vida. Amo o mar, a natureza, e minha mulher é daqui, então acabei me apaixonando por tudo, a cidade. Olhar o mar, essa imensidão, é impagável. Hoje, com menos trânsito, consigo ter mais tempo, ficar com meu cachorro, meu gato, isso melhora minha qualidade de vida.

Foto: (Heitor Feitosa/VEJA.com)

Como é um dia típico em sua vida?Normalmente acordo cedo, gosto muito de ver o nascer do sol tomando café. Caminho com meu cachorro, hoje faço minha fisioterapia aqui mesmo, consigo escolher os exercícios. Termino essas atividades por volta das 11h e entro de cabeça no trabalho, respondo e-mails, redes sociais, posso atender pedidos de entrevistas e cuidar das minhas palestras, estudar, ler. E no fim da tarde vou à praia de novo, passear com meu cachorro. Mas varia, tem dias que não dá nem tempo de sair.

Ter completado 30 anos mudou sua visão de mundo? Tive minha semana de inferno astral, mas isso me fez amadurecer. O melhor que essa mudança me trouxe foi a maturidade de cuidar mais da minha máquina, do que me restou, que é a minha cabeça.

Hoje você mora com sua namorada. Como tem sido a vida de casada? Está sendo muito gostoso. Estou aprendendo muito, estamos somando uma à outra. Tem pontos que acabam sendo difíceis. Por exemplo, tenho um cuidador, e é complicado ter uma terceira pessoa em casa, sabe? Para estar ali, no meio dos nossos problemas e também das nossas felicidades, na nossa vida particular. Mas o relacionamento é ótimo, estou amando muito. Ela é uma menina muito generosa, verdadeira. Não é todo mundo que namoraria uma tetraplégica… porque é realmente difícil. Eu, na época em que andava, nunca conseguiria.

E quais os planos do casal? Penso muito em ter minha casa, filhos, estudar, estamos traçando planos devagar. Pensamos em adotar, mas ela também tem vontade de engravidar… vamos ver. Esse ano eu gostaria mesmo de me casar. Penso em filhos para daqui uns quatro anos, até porque o processo de adoção demora.

Seus fãs se emocionam ao ver seus exercícios nas redes sociais. Qual é a importância da fisioterapia? É libertador. Hoje uso uma espécie de “robozão” que me deixa de pé e consigo fazer diversos exercícios – descarga nos pés, nos braços, melhoro minha pressão, ganho massa muscular, com eletroestimulação, cada dia procuro dar atenção a um grupo muscular.

E sente evolução? Não muito, na verdade. Melhorou minha sensibilidade, óbvio, mas ainda está meio que estabilizado. Minhas vitórias têm vindo de outros jeitos, estou me conhecendo melhor, gostando mais de ficar em casa, tenho dado mais atenção à limpeza, higiene, porque não consigo fazer xixi sozinha. Decidi abrir o armário, manter só as roupas pelas quais tenho mais carinho e doar as outras, arrumar os livros e cacarecos, papéis, dar uma organizada. Deixei o ambiente com mais harmonia. E estou comendo mais em casa, o que tem sido muito bom para o meu bolso.

Passou por dificuldades financeiras? Sim, tive uma fase complicada de grana e tive simplesmente que cortar o que era supérfluo. Parei de fazer compras gigantes, coisas de marcas famosas, desapeguei. Estou comendo em casa, não saio tanto para bar, ando menos de carro, tive de juntar um pouco mesmo, por necessidade. Não é fácil ter um gasto mensal fixo perto de 2.000 reais só de sonda para fazer xixi, mais remédio, hospital… E isso porque eu tenho mais possibilidades, patrocínios, tem gente que depende só de ajuda do governo. Eu tento juntar dinheiro para a minha velhice. Por enquanto estou nova, não tenho problema de saúde, mas tenho de pensar no futuro.

Quais são suas fontes de renda? Faço palestras, recebo uma pensão do governo e tenho o patrocínio da Universidade Estácio de Sá. E o Neymar me ajuda muito desde sempre, assim como o Doda Miranda, que é muito parceiro. Chamo esses meninos de padrinhos, porque sem eles eu não sei como seria a minha vida.

O Neymar é discreto, não costuma falar dessa ajuda que te fornece… Ele nem precisa, né? Acho que é mais uma amizade, mesmo. Também não gosto de ficar falando muito. Óbvio que lembro, agradeço, mas não tem necessidade de ficar falando disso.

Como amiga, você sofreu com o Neymar na Copa do Mundo e com as críticas que ele sofreu? Acompanhei um pouco. Ele sabe o que faz, sabe que é bom. Sou muito fã desse lado moleque dele. E independente do que já saiu de polêmica, acho que ele é bom. E nunca teve nenhuma acusação gritante contra ele, de coisas sérias como assédio, estupro, algo assim. Ele é limpo. É um molecão e tem mais é de aproveitar mesmo, tem de seguir e continuar essa pessoa massa que ele é.

Contar sua história em palestras te faz bem? Sim. Não me considero uma ótima palestrante, mas tento passar o que vivi com amor. Estudo a empresa, o tema, o que ela pretende de mim, e assim tento seguir uma linha e somar na vida das pessoas, fazer com que virem uma chave na cabeça… Gosto muito e muitas vezes aprendo mais do que ensino.

Foto: (Heitor Feitosa/VEJA.com)

Cinco anos depois, como encara o acidente? Cara, muitas vezes eu me pego pensando no que aconteceu, dá vontade de voltar no local, ver se não tem um portal para que eu possa voltar. Porque em um segundo mudou toda a minha vida, é quase impossível não pensar. Não me arrependo do que fiz, nem de nada. Mas a aceitação demorou, nestes cinco anos tive muitos altos e baixos, várias coisas me surpreenderam. Não imaginei que fosse sentir adrenalina de novo, que fosse me apaixonar, que alguém fosse gostar de mim. Estava muito negativa e hoje percebo que não é a cadeira que me faz ser melhor ou pior, mais feia ou mais bonita. O que está mudando é a minha atitude perante às pessoas, tento ser mais verdadeira, entender o outro. Perguntei mil vezes a Deus: por que o corpo todo? Mas me encontrei, mesmo sem ter uma resposta.

Ainda acompanha esporte? Um pouco, vejo mais as meninas da ginástica, mas nada parecido com o que era antes. Continuo amando e espero que me encontre novamente no esporte, porque a adrenalina é muito gostosa, a busca pela melhora. Mas ainda não rolou. Conheci a bocha adaptada, joguei um pouco, mas não me encontrei nela.

Qual é o seu principal lazer? Meu cachorro e meu gato, os passeios na orla. Gosto de ir para um lugar bem longe. Um mês atrás fomos a um município chamado Alfredo Chaves (ES), numa fazenda, ficamos no meio do nada, vendo os meninos (o cachorro e o gato) correrem. É o que mais me dá prazer. Também leio muito. E, claro, passar o tempo com minha namorada.

Que livro está lendo? A Assinatura de Jesus (de Brennan Manning). É cristão, mas traz muito do momento político que estamos passando, tudo o que Deus falava. Ele desvenda a história que já escutamos milhares de vezes. É engraçado ver a história se repetindo desde lá atrás e os erros se repetindo.

Você é religiosa? Não tenho religião, não frequento Igreja, mas acredito em Deus, acho que existe uma energia maior. Acho que Deus está dentro da gente, se fizer o bem vou colher bem, essas coisas.

Na onda do desafio que faz sucesso nas redes sociais, como se imagina daqui 10 anos, aos 40?  Queria muito que já existisse uma “cadeira do futuro”, ou que encontrassem a cura para a paralisia. Queria conseguir ter um movimento de braço, de perna. E também me enxergo com a minha família, pode ser na praia mesmo… e um mundo melhor, com menos maldade.

Fonte: Veja

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