Ser Lesado

Curiosidade e Informação sobre Lesão Medular

A limitação é apenas física

Posted by on jan 3, 2017

No Brasil, cerca de 24% da população vive com algum grau de deficiência ou limitação, seja para andar, ouvir, enxergar, até lesões graves incapacitantes, de acordo com dados do IBGE de 2012. Devido a questões socioeconômicas, grande parcela dessa população vive sem seus direitos básicos como ser humano. No âmbito destas privações, além de falta de acessibilidade a espaços públicos, transporte e saúde, estão situadas também violações aos direitos sexuais e reprodutivos do indivíduo com deficiência.

A psicóloga e pós-doutora junto ao Laboratório de Ensino e Pesquisa em Sexualidade (LASEX) da Unesp de Araraquara, Ana Cláudia Bortolozzi Maia, aponta que a discussão da sexualidade de pessoas com deficiência física no Brasil envolve um duplo tabu: primeiro, a sexualidade em si já é cercada de valores moralizantes e de representações sociais que determinam comportamentos padrões e comportamentos “desviantes”, a começar pela orientação sexual do indivíduo. Quanto à deficiência, seja ela física ou intelectual, há inúmeros mitos envolvidos no imaginário popular quanto à sexualidade destes grupos, como a atribuição de assexualidade (ausência de desejos sexuais) a eles.

De acordo com o documento “Direitos sexuais e reprodutivos na integralidade da atenção à saúde de pessoas com deficiência física”, de 2009, do Ministério da Saúde, o direito de qualquer pessoa a uma vida sexual livre, segura e prazerosa se sobrepõe à presença de deficiência. Ou seja, não existe uma sexualidade “especial” da pessoa que deva ser discriminada no âmbito que engloba a sexualidade de todos os seres humanos. É equivocado distinguir “tipos” de sexualidade – “normal” ou “deficiente”. A Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência garante o direito à constituição de família, à paternidade, ao casamento, à informação adequada e ao planejamento familiar a todas as pessoas, independentemente de sua condição física.

A psicóloga Ana Cláudia explica que a questão da sexualidade de pessoas com deficiência ainda é muito negligenciada, mas, por outro lado, essas pessoas estão se expondo mais na “sociedade da inclusão”. “Antes, elas ficavam restritas ao ambiente da casa ou da instituição. Hoje, a gente tem visto mais acessibilidade, então as pessoas saem mais e isso as favorece, porque a sociedade começa a reconhecer que existem pessoas com deficiência”, afirma.

Deve-se combater a ideia de que pessoas com deficiência são solitárias e sem interesses sexuais ou afetivos. (Foto: Pech Frantisek)

Deve-se combater a ideia de que pessoas com deficiência são solitárias e sem interesse sexual ou afetivo (Foto: Pech Frantisek)

Apesar disso, ela aponta que ainda falta muito para as cidades serem realmente inclusivas a essas pessoas, devido à dessexualização que a sociedade impõe às pessoas com deficiência. É raro, por exemplo, motéis apresentaram quartos adaptados para as necessidades especiais de uma pessoa em cadeira de rodas, o que incluiria camas rebaixadas e banheiros sem vidros. Em Bauru, apenas um motel com acessibilidade foi encontrado (informações no final da reportagem). Também não se vê casas noturnas que se preocupem em abranger e atrair esse público, ou mesmo clínicas de fertilidade que os considerem como constituidores de família em potencial.

Tanta invisibilidade gera desinformação quanto à educação sexual para quem tem deficiência, até mesmo porque as próprias famílias podem enxergar o tema como um tabu ao não atribuírem ao parente com deficiência a possibilidade de uma vida sexual em potencial, levando ao silenciamento do assunto.

A educação sexual nas escolas e no âmbito familiar é um ponto chave apontado pela especialista Ana Cláudia, tanto no que diz respeito à saúde dessas pessoas, para evitar doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes, quanto para que o direito que elas têm à uma vida sexual e afetiva seja exercido. “Há, principalmente, a questão dos direitos humanos. O exercício da sexualidade deles é um direito, assim como para qualquer um”, assegura ela.

O Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Faculdade de Ciências, UNESP de Bauru, eventualmente realiza atendimento de reabilitação sexual para esse público quando os alunos do curso realizam estágios. Uma das finalidades é informar as pessoas com deficiência sobre planejamento familiar e sobre os direitos pelos quais elas podem lutar.

Os grupos de reabilitação ensinam que o sexo é apenas uma parte do conjunto da sexualidade, e que esta não deixa de existir nunca, apesar de qualquer limitação que possa acontecer.  “Quando a gente trabalha com reabilitação sexual, a ideia não é necessariamente trabalhar só o problema da ereção, no caso dos homens, ou da lubrificação, no caso das mulheres; é um reaprendizado de que o corpo inteiro é erótico, e que ter ou não orgasmo, ter uma ereção ou não, não faz dele uma pessoa menos sexuada ou capaz de sentir menos prazer. É uma desconstrução do que se aprende durante a vida inteira sobre sexo”, afirma Ana Cláudia.

Na prática

A deficiência física pode influenciar o desempenho sexual em diversos, a depender do nível de lesão medular. No caso da lesão que causa paraplegia, por exemplo, pode haver comprometimento do desempenho sexual, mas não são em todos os casos. Pode haver dificuldades de ereção, mas o principal problema para os homens com deficiência física são as dificuldades para ejaculação. É mais comum eles serem inférteis do que terem disfunção erétil, devido à ejaculação retrógrada, na qual o sêmen, ao invés de ir para a uretra e sair, vai para a bexiga e pode gerar infecções.

“Há também muitas questões de gênero que permeiam o campo da sexualidade da pessoa com deficiência”, aponta Ana Cláudia. A psicóloga explica que para a mulher, a maior preocupação é se ela vai ter filhos, enquanto que, para o homem, a grande preocupação da maioria é quanto à ereção. “As mulheres geralmente são férteis, é muito difícil uma lesão causar infertilidade nelas. Já a maioria dos homens, no caso de lesão completa, vai ser infértil”, comenta.

Fonte: http://www.reporterunesp.jor.br/

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